segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Hipocrisia





    
Liberdade, no Araguaia, por Tereza Sobreira, 2009


Hipocrisia


João Carlos


“A morte nos espreita, e não sabemos quando chegará; aguardemo-la em todo lugar. Meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade. Quem aprendeu a morrer, aprendeu a não ser mais escravo. Nada atingirá a quem sabe compreender que morrer não é um mal. Saber morrer liberta-nos de toda sujeição e constrangimento.”
(Montaigne, 1533-1592)



O pequeno grupo, cada vez mais reduzido, que difundiu um abaixo-assinado nesta semana, contra comitês e a Comissão da Verdade, que, como sempre, não lhes satisfazem a vontade, se apresenta como porta voz de quem?

Qual chantagem faz ao PCdoB, ao PT ou ao governo a única pessoa que participou dos eventos da Guerrilha do Araguaia, integrante há anos de tais grupos, hoje transformados em ONG's?

Algum guerrilheiro sobrevivente deu procuração a ela ou a outras dessas pessoas para nos representar de forma teatral como coitadas viúvas? Repudiávamos e repudiamos esse tipo de exibição, nunca fomos ou nos vimos assim.

Esclarecemos, no campo da luta, a nossa opção clara e consciente, de participar de ações, como a Guerrilha do Araguaia, contra a ditadura daquele momento.

Nós, sobreviventes, não somos chamados oficialmente a falar sobre nossa participação. Ao contrário, somos bombardeados de longa data por uma campanha difamatória.

Estive lá por amor à liberdade e, ali, como guerrilheiros, éramos mais do que camaradas. 

Não segui para o campo por religiosidade, amor ou fidelidade ao partido. Alguns camaradas podiam até estar ali por Stalin e sua doutrina, no entanto, cada um, com seus sonhos e razões, lutou sem esperar piedade.

Escolho sempre a loucura libertária, jamais atitudes cafajestes e o comportamento sem ética dos que representam nossa República, historicamente encorajadora, por um certo tempo, de oportunistas e canalhas.

Entendo como tremenda cara de pau daquela e de outras poucas figuras que rondam sempre as investigações da história, a confecção de mais um entre diversos abaixo-assinados escritos pelo mesmo agrupamento, ao longo das últimas décadas.

Boa parte dos três poderes, em nome da tal “governabilidade”, está envolvida diretamente nos escândalos diários e abrem as porteiras para as ratazanas do porão.

Como se sustentam esse e outros grupos oportunistas? Da forma como está estabelecida a relação entre a democracia representativa e a direta. 


Para a representativa elegemos representantes aos postos executivos e legislativos, que, ao exercer o poder, transformam-se em déspotas, alheios à vontade pública, praticando desmandos a torto e a direito.


Para se afirmar no poder, necessitam desses grupos intermediários, que se auto-intitulam representativos, mas na verdade movem-se apenas por interesses escusos.


Felizmente, vemos também muitos gestores municipais serem cassados, ultimamente, por atos de corrupção. No início da década de 90, caras-pintadas foram às ruas exigir a saída do primeiro presidente eleito por voto direito, após o regime militar.

Por que o Araguaia?







 Antígona, de Brennand


Por que o Araguaia?

Myrian Luiz Alves



"...Quem nesse mundo faz o que há durar:
Pura semente dura: futuro amor..."
(Relicário, Nando Reis)"


A petição de 1982, de autoria de 22 familiares de guerrilheiros do Araguaia, elaborada pelo advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, em co-autoria com Sigmaringa Seixas, recebeu sua sentença da Justiça Federal somente em 2003.

Inspirada e baseada em Antígona, de Sófocles, representada em 442 a.C, ela pergunta à União o paradeiro dos mortos da guerrilha. Defende o direito inalienável de os mortos serem sepultados dignamente.

O Brasil teve 144 “desaparecidos” durante o regime militar, entre 1964 e 1976. Na Guerrilha do Araguaia, composta por cerca de 80 pessoas ao longo de seus três anos, morreram 59 guerrilheiros, e, como já falamos, 16 militares, segundo Sebastião Curió, um dos responsáveis pela Operação Sucuri, de infiltração e informação (1973). Pereceram mais de 20 moradores. A sentença estendeu o direito das 22 famílias a outras não incluídas na petição bem como às de moradores.

Dos militares mortos pouco se sabe. Tratamo-os como se não fossem sujeitos também da história. Compreende-se que tenham sido sepultados em suas cidades de origem. Há um militar desaparecido, o soldado Valdir de Paula, cujo sumiço é registrado em boletim de  ocorrência do comando da época, em agosto de 1973. Não se sabe o que ocorreu a ele, incluído em portaria do ex-Grupo de Trabalho Tocantins, instituído pelo ex-ministro da Defesa, Nelson Jobim, para o cumprimento da sentença federal, em 2009, após dois recursos da União.




Meninos do Araguaia, retratados por Tereza Sobreira, 2009.
A guerrilha é tema do currículo escolar na região

O começo da pesquisa

Myrian Luiz Alves

Minha introdução ao tema Guerrilha do Araguaia surgiu em 1990-1991, durante a CPI de Perus, sobre desaparecimentos políticos, da Câmara Municipal de São Paulo, presidida pelo vereador Julio Cesar Caligiuri, descendente de calabreses, professor de biologia, com estudo em medicina legal.

Durante 120 dia passaram pela CPI ex-governadores, entre outras autoridades de S.Paulo, torturadores, guerrilheiros, familiares, delegados e legistas,  a maioria para tratar de assuntos relativos à guerrilha urbana. Várias organizações foram ali estudadas. No decorrer da CPI, militantes enterrados no Cemitério de Perus foram reconhecidos por fotografias encontradas nos livros do Instituto Médico Legal de São Paulo.


Sugeri aos vereadores incluir a Guerrilha do Araguaia na investigação parlamentar. A CPI, então, ouviu vários depoimentos, que resultaram no resgate do corpo de Maria Lucia Petit, enterrada no cemitério local, embora a busca fosse pelo corpo de João Carlos Haas Sobrinho.

Nos primeiros dias de abril de 2001, recebi um telefonema do então secretário de Relações Exteriores do PCdoB, José Reinaldo, a quem não via há muito tempo. O PCdoB me perguntava se eu sabia algo a respeito do corpo do Joca.

 - Joca, quem é Joca? -, perguntei.
 - É o guerrilheiro italiano, do Araguaia.

Zé Reinaldo me esclarecia que o Partido da Refundazione Comunista, da Itália, perguntara ao PCdoB o destino do calabrês, nascido em San Lucido e que viera para o Brasil aos 11 anos de idade.

A pergunta nada tinha a ver com a determinação de Greenhalgh de instalar o grupo. O PCdoB, afirmava Zé Reinaldo, ainda não tivera conhecimento da investigação que se iniciava.

A questão colocada pelo PCdoB era, portanto, apenas coincidência. Disse-lhe que não sabia nada a respeito do Joca, mas que iria procurar saber. 

Ao chegar em casa, vi no livro Guerrilha do Araguaia, editado pelo PCdoB em 1982, as poucas linhas a respeito de Joca, o ítalo-brasileiro Libero Giancarlo Castiglia. Fiquei triste. Percebi, com aquelas poucas informações, que o rapaz deveria ser muito dedicado ao movimento, até pelo fato de ter morado à beira do Araguaia por longos cinco anos antes do início do conflito, tendo mudado para ali aos 23 anos de idade, no Natal de 1967.

O próprio partido me passou o telefone do sobrinho de Joca, Wladmir Castiglia, morador do Rio de Janeiro. Wladmir me ajudou no acesso à família, que retornara à Itália no início dos anos 70, e participou, em 2001, dos trabalhos da Expedição Antígona, nome dado por Greenhalgh ao grupo por ele coordenado para os trabalhos de busca na região.

Fui aprendendo, pela segunda vez na vida, a conhecer o caráter daqueles militantes, cientes do risco que corriam em meio à floresta amazônica. Norteie-me pela história do Joca, a partir de então. Ao longo desses 10 anos conheci pessoas de sua família, como seu irmão, Antonio Castiglia, morador de Melbourne, Austrália, sua sobrinha Lara, da Itália, e dialoguei com seu irmão Walter, também da Itália, formando um intercâmbio entre três continentes. Joca virou notícia na Itália e no Brasil.



João Carlos, Paulo, do Dst A, em foto pós-guerrilha, no retorno à medicina

Uma das matérias italianas denominou Joca o “Che Calabrês”. Conversei com seus companheiros de guerrilha, Elza Monerat, João Amazonas, Danilo Carneiro, Lucia Regina, e, somente no final de 2009, João Carlos Campos Wisnesky. Mantenho amizade com a família de Eduardo, vizinho de Joca na Faveira. Quando conheci Baiano, seu Otacilio, e sua companheira, Felicidade, disse-lhes que não escreveria sobre o Joca e sobre ninguém mais enquanto seus direitos não fossem considerados pela Comissão de Anistia.

Baiano, que vendera um motor para o barco de Joca, foi barbaramente torturado, quando preso em 4 de abril de 1972. Renasceu como cidadão em 12 de abril de 2006, dia em que vários casos do Araguaia foram julgados pela Comissão de Anistia. Baiano foi o primeiro morador de Marabá a ter seu direito reconhecido, juntamente com o caso de Pedro Onça, habitante das matas de São Geraldo. A anistia aos moradores do Araguaia nunca foi defendida por essas pessoas que teimam em estar à frente de comissões, com o objetivo de obstruir direitos alheios e as informações históricas.

Em consequência de reportagem de Hugo Marques para a revista Istoé, editada por Hugo Studart, por exemplo, o ex-ministro de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, deslocou-se ao sul da Itália para retirar material genético de dona Elena Gastiglia. Esse tipo de ação exibicionista fora realizado também pelo ministro anterior, Nilmário Miranda, em Belo Horizonte. Na capital mineira, a retirada de material para DNA de familiares em geral, ocorreu durante ato público.


                                                                                     (Tereza Sobreira)


                      2009 - General Araújo, da 23ª Brigada de Infantaria de Selva.
                          Convívio e ensinamentos sobre transitoriedade e maniqueísmo                                      


Em 2009 e 2010, busquei novas informações na região como pesquisadora convidada do GTT. Procurei pistas de vários guerrilheiros. No GTT, os pesquisadores dividiam assuntos por área e conhecimento. Embora tenha procurado saber a respeito de vários destinos, o de Joca surgiu espontaneamente numa entrevista com dois moradores que trabalharam para as Forças Legais (militares), ex-vizinhos de Antonio Carlos Monteiro Teixeira e Dinalva Conceição Oliveira Teixeira, a Dina. O primeiro, vizinho em São Geraldo, o segundo, em Abóbora, sudeste do Pará.

“Bateu catolé” na arma longa de Joca, disseram-me os dois, em dias distintos. Um deles, de mesmo sobrenome utilizado por Joca, Bispo, em documentos falsos, quando se deslocava para cidades maiores como Imperatriz e ou o Rio de Janeiro, já em 1971, ano em que sua irmã Wanda o viu pela última vez.

Uma semana antes do “catolé” (quando a munição umedecida impede o disparo), Joca e outros guerrilheiros enfrentaram militares em local próximo a Abóbora. Um sargento foi ferido na perna.

Mandiocas tiradas de uma plantação denunciaram os guerrilheiros dias depois. O rastreador foi chamado e, acompanhado de três equipes militares, alcançou Joca.

Surpreendido, sozinho, Joca tenta atirar nas costas do rastreador, Bispo, que, no susto, a poucos metros do guerrilheiro, escorrega e atira para cima, alertando as equipes. Joca ainda corre e é alvejado nas costas. Ao cair, tenta sacar seu 38, arma em que confiava, segundo afirmou João Amazonas em suas memórias. O guia Silora, na narrativa de Bispo, desarma Joca lhe disparando, com o revólver do guerrilheiro, o tiro mortal no peito.



Joca, primeiro comandante do Dst A: “Se nunca se começa, nunca se sabe. Se não se consegue, paciência.”

(Em resposta à sua mãe quando lhe perguntou sobre sua intenção,
 e a de seus amigos, de mudar o mundo) 


Segundo Bispo, e o ex-soldado Adolfo Rosa, o corpo de Joca foi levado de helicóptero para Xambioá. Bispo afirma ainda que mais de 50 pessoas assistiram à cena. O ex-vizinho de Dina conta também ter visto, em 1972, Kleber Lemos, Carlito, ser levado vivo para Xambioá da mesma forma que viu Telma Regina Cordeiro, Lia, ser levada já em 1974. Os dois na área de Abóbora.

Para Bispo, nenhum corpo de guerrilheiro teria sido largado na mata  - “pelo menos não nessa área daqui”, diz, referindo-se à região entre São Geraldo e Santa Cruz. Por longos anos, imaginou que Lia sobrevivera, porque “Genoíno veio aqui em São Geraldo discursar depois da prisão”, diz.

Dona Elena faleceu em julho de 2011. Não conseguiu, como a mãe de Bergson, saber de seu filho e enterrar, nem “que fosse um dedo”, como dizia. Ao saber de sua morte, o sentimento foi de impotência. As informações sempre estiveram lá, jamais seriam negadas pelos dois moradores, que amargam ainda os prejuízos pelo trabalho recrutado pelo militares sem remuneração.

Assim como Adolfo Rosa, irmão do cabo Rosa, não negou informações à jornalista Taís Morais ou a mim, a quem Taís chamou a Belém ao perceber que Adolfo teria o que contar sobre o Joca. Os detalhes contados em meados dos anos 2000 por Adolfo coincidem com os narrados pelos moradores recrutados pelos militares.

E assim temos feito os jornalistas. Um passa ao outro informações que ajudem a (re)montar esse quebra-cabeça, a mais bela e cruel página de nossa história republicana, vivida em plena guerra fria.

Para facilitar a pesquisa escolhemos personagens, embora tratemos de todos, e tentamos seguir todas as linhas que surgem à medida que nos aprofundamos no tema. Quase todos nós entendemos que a história não é relatada oficialmente, como deveria, por causa do “desaparecimento” de pelo menos 23 prisioneiros e da barbárie também contra civis.

A partir de tantos relatórios já divulgados, cedidos por militares, pode-se, em primeiro lugar, checar as folhas de alteração – prontuários militares - para saber quem eram os oficiais de plantão nas datas fornecidas pela Marinha, relatos guerrilheiros e testemunhos de ex-militares e moradores.

Mas, por que essa turma que diz defender os direitos humanos faria isso, afinal? Se a história for contada, esclarecida em sua maior parte, como e do que viveriam esses vampiros de corpos e do estado?

O diversionismo aplicado por essa pequena e desinteressante turma se locupleta ao dos assassinos de prisioneiros. Militares covardes que, se descobertos, seriam excomungados da vida militar oficial do país.




Eduardo Rodrigues , em visita à Faveira, em 2004, após 33 anos de retirado pelo conflito, na
primeira década do sec. 21.  Tem saudade do café do ex-vizinho Joca, ex-torneiro mecânico, formado no Senai de Vassouras (RJ), servido com o açúcar na mesa


Maiakovski, o poeta da Revolução Russa, dizia que daria seu fígado ao cão faminto postado ao lado da padaria - “toma, cãozinho, coma”.

João Carlos contou-me que Joca dividia a sua pouca refeição com sua mula. Motivo de brincadeira entre os companheiros, o reservado calabrês, nunca autoritário com seus soldados, mostrava doçura para defender um mundo mais fraterno, como ensina o poeta.   

Para pesquisar, ou colaborar com a remontagem dessa história, é preciso, enfim, obter, no mínimo, um pouco do espírito paciente do homem nomeado Livre (Libero), ao nascer, em 4 de julho de 1944. Período final da segunda grande guerra e de comoração da influente Independência dos Estados Unidos.

Dia, ainda, em que se homenageia o nascimento de Giuseppe Garibaldi,fundador de nossa primeira experiência de república, a Juliana, em terras de Santa Catarina.                                      

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Esquerda - Vaidade - Colonialismo cultural

Fundo da antiga casa da Faveira, litigio, em 2004, de um capitão do Exército.
Não há nenhum ponto em todo o sudeste do Pará tombado como registro histórico da guerrilha, nas áreas das Forças Guerrilheiras do Araguaia (Foguera) ou das Forças Legais

              Esquerda - Vaidade - Colonialismo cultural
João Carlos

                                                                                                                                              
     Entendo Esquerda como a força política que defende benefício social, cultural e econômico para todos. Tradição que sobrevive à mãe de todas as revoluções, a Francesa, na qual os grupos ficaram conhecidos pela posição que ocupavam nas assembleias. As forças mais progressistas, à época, posicionavam-se à esquerda.


    Integrantes, militantes de agremiações partidárias, sindicatos e de boa parte do movimento social tomam emprestada a designação. Utilizam-na e a envergonham nos dias de hoje, corrompendo, com ambições pecuniárias, até mesmo as legendas que se intitulam herdeiras daqueles ideais.


    Ainda existe uma esquerda democrática, querendo um sistema de governo no qual o povo exerça sua soberania, tomando decisões importantes a respeito das políticas públicas. Não de forma ocasional ou circunstancial, sempre segundo os princípios permanentes da legalidade.


     Uma esquerda comprometida com a justiça social, que acate, quando governo, a vontade da maioria, respeitando os direitos e a livre expressão das minorias, em que as equações se resolvam com o diálogo entre a democracia direta e a democracia representativa.


    No momento, está no poder uma esquerda stalinista e populista criando novos currais eleitorais, por meio da distribuição de bolsas e salários sem alterar substancialmente a forma do desenvolvimento econômico e a realidade social.


   Todos nós somos herdeiros de uma nação iniciada por uma “elite” europeia, a colônia Brasil, com o objetivo do lucro rápido, que originou a designação povo brasileiro, copiada dos trabalhadores que manuseavam o pau-brasil, tal como carpinteiro, costureiro - uma profissão, não uma nacionalidade.


   Apesar da desfiguração de nossa nacionalidade, teimamos em continuar lutando por condições dignas para todos.


    Na história da qual participei, havia integrantes de várias origens da esquerda, incluindo uma viúva jamais casada, até hoje encastelada num grupo que tudo faz, até mesmo ocultar restos mortais em armário de ministros, entre outras maquinações, como criar e espalhar boatos de desconfiança sobre outros sobreviventes, para que os fatos ocorridos no sul do Pará não sejam devidamente relatados.


    O que mais a esquerda stalinista quer apagar da memória do povo brasileiro?

    Lembremos epopeias tupiniquins, como a Coluna Prestes, com suas vitórias, tanto a militar, cuja marcha de 25 mil km é estudada nas academias militares mais importantes do mundo -, como a diplomática, ocorrida em sua rendição, na Bolívia, ao pactuar com os oficiais daquele país, a posse de uma arma longa para cada grupo de dez homens e que cada integrante ficasse com sua arma curta. Lições ignoradas em troca de uma cartilha externa, maoísta.


  Também ideias educativas para solucionar o marasmo educacional e cultural, com orientações e métodos praticados mundialmente, conhecidos pelo nome de seu criador, Paulo Freire, não são aqui colocados amplamente em prática, como foi no Vietnã.
   


                                                                                                           “Que lembrança darei ao país que me deu
Tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?”
(Carlos Drummond de Andrade, 1951)


Sônia

 Fragmentos 

João Carlos

      Amiga, camarada, companheira, coração do mundo em todos os momentos.     
     Proletária mesmo, de infância difícil, eu a conheci magra, de mãos longas e finas, de pianista.
     Devemos nos ter esbarrado nos “Concertos para a Juventude”, organizada, executada e palestrada pelo maestro Eliezer de Carvalho, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro no início dos anos 60, quando jovens ansiávamos e respirávamos liberdade, cultura e política, como os jovens também estão começando a fazer hoje.
     Quando abri o partido, seu programa e política para ela, apenas fez uma pergunta:    
      - E o ser humano?
      - É por ele que vamos lutar.
     Significativos segundo depois, a resposta.


     Ao reencontrar Sonia, com seu sorriso amplo, aberto e feliz, na Beira, no Araguaia, abraçamo-nos, e a saudade derretia. O cenário era grandioso como nosso projeto de liberdade. Seu corpo estava rijo, com curvas generosas.
     Em certa noite, durante o período de treinamento intensivo do destacamento, Sonia, ainda com o sorriso luminoso, Zebão, João Araguaia, Zé Carlos, Cristina, Duda e eu trocamos impressões de como andava a preparação, a estratégia e etc.
     Sobre meus questionamentos a respeito de melhor preparação militar (fustigamentos, preparar locais previsíveis de entrada da reação para emboscadas e armadilhas), João Araguaia ponderou com a sobriedade que lhe era peculiar. Dizia que todos os aspectos eram novos, inclusive para o nosso comando.
     Todos os olhos se voltaram para o comandante, Zé Carlos, que declarou solenemente: - Se a Comissão Militar disser - batendo com os nós dos dedos na madeira - que isso é pedra, eu acredito.
     Pela primeira vez, vi Sonia com o rosto baço, como estavam os dos demais, que se mostravam confusos.
     Quem lhe teria apagado o sentido crítico, sempre espontâneo e afiado?
     Senti, naquele momento, solidão e vazio.


     No fim do treinamento, discursos, despedidas e um comunicado.
     - Reunião à noite, no Peazão.
     O que seria?
     Era além da surpresa!
     Era além de qualquer bom senso!
     JULGAMENTO DA SÔNIA.
     Acusação: - Excesso de cuidados. A palavra usada foi paternalismo - dela com o Mário (Maurício Grabois), que sofria de hipertensão, entre outras enfermidades.
     O ciúme, a inveja, o medo de perder qualquer poder motivaram a pantomima açulada pela Mocréia, sentada ao lado do Gil**, representante da Comissão Militar, que, sem cerimônia, fez a acusação com a maior cara limpa.
     Falei a favor de Sônia, o que não era uma defesa, por que não havia o que defender.
     Ficou no ar um mal estar, ninguém falou mais nada, os olhares se desviavam. Cheirava mal.

*Respectivamente, os guerrilheiros Sônia (Lucia Maria de Souza) ,  Zebão (João Gualberto Calatroni), João Araguaia (Demerval da Silva Pereira), Zé Carlos (André Grabóis), Duda (Luiz René Silveira e Silva), todos, incluindo  Paulo (João Carlos Campos Wisnesky), componentes do Dst A, comandado, nesse período, por Zé Carlos.
**Integrante da Comissão Militar, Gilberto, Pedro Gil (Gilberto Olímpio Maria).
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"Segredos" 

Myrian Luiz Alves


          Placa exibida na entrada do Batalhão de Infantaria de Selva (BIS), 
no Km 8 da Transamazônica







Militares em cerimônia do Dia do Exército, 19 de abril, no 52º BIS, 2011. Criado para o combate à guerrilha, em junho de 1973, o BIS foi instalado na entrada da área do Destacamento A





Pelo menos um corpo de guerrilheiro foi levado do BIS, sob cuidados do então delegado de Marabá, para ser sepultado no novo cemitério da cidade, conforme apurou o Grupo de Trabalho Tocantins, com o apoio logístico da 23ª Brigada de Infantaria de Selva,  atualmente, a maior da América Latina. Em 1981, o reforço ao termo "terrorista", linguajar pouco utilizado nos relatórios militares e ausente do relatório parcial da Marajoara, de março de 1974. 

O relatório, divulgado pela jornalista e escritora Taís Moraes, em 2005, narra as perdas infringidas à "FOGUERA" ,  a partir outubro de 1973, entre elas o "Comandante Geral - MAURÍCIO GRABOIS, um elemento da Comissão Militar, o Armeiro, 2 (dois) Comandantes de Destacamento, 5 (cinco) Comandantes de Grupo e uma Enfermeira* (respeitando a grafia do original).

Relata o efetivo guerrilheiro inicial, em abril de 1972 e, em quadros, faz o reajustamento, em janeiro de 1973 e em 12 de janeiro de 1974, quando ainda havia, segundo o texto, 33 guerrilheiros na área, sendo dois elementos locais e quatro membros da Comissão Militar. Do Dst A, eram 11, do B, dez, e do C, oito.


Entre as vulnerabilidades do inimigo, afirma o Relatório do Exército (Gabinete do Ministro), CIE, n 1/74, distribuído em 21 cópias para departamentos das três forças  - "De acordo com o Art 44 do Regulamento para Salvaguarda de Assuntos Sigilosos (Decreto n 60.417, de 11 Mar 67), ficam os destinatários deste Relatório autorizados a difundir às Agências que lhes forem subordinadas, os itens que julgarem convenientes."


À página 83, afirma, ainda, "a perda de contato com o exterior (Partido), motivada pelo cerco estratégico que lhe foi previamente realizado, com prisão em massa dos Elementos do PCdoB, nas principais cidades do BRASIL, inclusive dos principais dirigentes LINCOLN CORDEIRO OESTE e CARLOS NICOLAU DANIELLI."** 


Documentos oficiais e testemunhais da história
* Lucia Maria de Souza, Sônia, nasceu a 22 de junho de 1944 em São Gonçalo (RJ) e tombou no segundo confronto da Operação Marajoara, em São João do Araguaia (PA), no dia 24 de outubro de 1973. Deixou o terceiro ano da Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro em 1971, quando deslocou-se para a região. Na área do Destacamento A, entre Marabá e arredores de São Geraldo, tornou-se a mais popular, devido sua atuação como a principal "Bula" (assistente médica) e a de melhor alvo do Destacamento A.



Cercada nas proximidades de um pequeno igarapé, sob ordens de prisão, não se rendeu. Atirou em dois oficiais, Sebastião Curió Rodrigues de Moura e Licio Ribeiro Maciel. Em Curió, o tiro pegou de raspão, e, em Lício, então doutor Asdrubal, o major-chefe da equipe, no rosto.


Desde os anos 70, Curió conta o episódio, ressaltando a valentia da guerrilheira e afirmando que ela atirara também em outro oficial, de quem não revelava o nome.


Em 2004, o tenente-coronel Lício Maciel, identificou-se como o ex-major, do confronto com Sônia, e responsável pelo encontro, em 13 de outubro de 1973, que resultou na morte do comandante do Dst A, Zé Carlos, Zebão e Alfredo ( Antonio Alfredo Campos), lavrador que aderira à guerrilha. João Araguaia conseguira escapar e narrou o fato, registrado em relatórios guerrilheiros. Nunes (Divino Ferreira de Souza) é aprisionado ferido. Levado para a Casa Azul, em Marabá, sede dos oficiais na última campanha, morre em 14 de dezembro de 1973, de acordo com o relatório da Marinha, de 1993.


Registra-se que o polêmico coronel esteve na Câmara dos Deputados e no Senado, soltando informações e impropérios, como faz em seu blogue. Revelou fatos relevantes, base do livro O coronel rompe o silêncio, do jornalista e escritor Luiz Maklou Carvalho, e depôs em oitiva da Justiça Federal, em 2010. Maklouf, nunca chamado pela área dos direitos humanos, acompanhou a primeira caravana dos familiares ao Araguaia, em 1981.


O coronel já contou, embora sua oitiva na Justiça Federal não tenha procurado saber a respeito, que formou o grupo de agentes que atacou o sul do Maranhão em 1971, na Operação Mesopotâmia, em busca de militantes da Var-Palmares, Ação Libertadora Nacional (ALN), MRT (Movimento Revolucionário Tiradentes) e Ação Popular (AP). A ação na região também procurava, entre outros,  por José Porfírio, líder de Trombas e Formoso (GO). Depois de  dois anos de prisão, na qual teve como companheiro de cela um dos guerrilheiros do Araguaia, Glênio Sá, Porfírio "desapareceu", após ser deixado por sua advogada na rodoviária de Brasília.


Entre 1971 e 1972, o coronel também esteve no embate no qual morreu Jeová de Assis Gomes, do Movimento de Libertação Popular (Molipo), em Guaraí (então estado de Goiás), com a presença do "desaparecido" Boanerges de Souza Massa, segundo o próprio coronel. Jeová foi enterrado no cemitério local, e ninguém perguntou ao coronel o que teria ocorrido com Boanerges.
**Este blogue ainda fará outro comentários a respeito do relatório da Operação Marajoara, entre outros.
 Apoio logístico do Exército ao Grupo de Trabalho Tocantins (GTT), 2010
O velho método e os fins
Em 2009, o jornalista Evandro Éboli, de O Globo, localizou o ex-guerrilheiro mirim José Wilson de Brito, recrutado pelo Dst A, aos 12 anos,  presente no enfrentamento de Sônia, a quem alertara, poucos segundos antes do cerco, que não acreditava terem sido os “meninos” a passar por ali, como ela lhe dissera, ao perceber que as botas que deixara para banhar-se na grota que hoje leva seu nome tinham sumido. 


Já nos primeiro tiros, "Wilsinho" jogou-se ao chão, arrastando-se rapidamente. Após alguns dias passou a amargar a prisão que perduraria três anos. Os direitos humanos nunca chegaram a Wilson, que retornou em 2009 a São Domingos do Araguaia (PA) para colaborar com os trabalhos do GTT. Esses direitos também não chegaram a Lauro Rodrigues, da Faveira, que perdeu um irmão e metade de um braço na explosão de uma granada encontrada no chão. Pouco antes, Lauro, então com 16 anos, ficara responsável pelo comércio da Faveira, sob supervisão mensal do Beto (Lúcio Petit da Silva), como outros, ex-morador da casa à beira do Araguaia, no histórico município de São João.


Em 2011, a logística, apoio fundamental - e simbolicamente rico - da Brigada de Infantaria de Selva, de Marabá, exercido desde 2009 ao GTT, composto por legistas e antropólogos forenses, do Instituto de Criminalística do Distrito Federal e da Polícia Federal, geólogos (de várias universidades do país), arqueóloga, pesquisadores, familiares, moradores, ex-guerrilheiros, entre outros, e coordenado pelo Ministério da Defesa do Brasil, sofrerá condições.


Sob a coordenação de três ministérios - Defesa, Justiça e Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH) -, o Grupo de Trabalho Araguaia submete-se hoje aos pedidos  feitos por "representantes" de direitos humanos, casualmente, também partes da petição junto à Corte Internacional de Direitos Humanos, de retirada da farda militar e de não realização de reuniões para feitura de relatórios nas dependências da Brigada, em Marabá.


Destaca-se que a sentença da Justiça Federal tem como ré a União, não as instituições nacionais.

sábado, 5 de novembro de 2011

Por que, no Brasil, os direitos humanos não ouvem os militares?





De paletó, o ex-major Thaumaturgo Sotero Vaz, atualmente general. 
Um dos chefes na Base de Xambioá



Por que, no Brasil, os direitos humanos não

 ouvem os militares?


Myrian Luiz Alves


“À Pátria tudo se deve dar, nada pedir, nem mesmo compreensão.”
(Tenente Siqueira Campos)



Numa rápida retrospectiva, todas as informações relevantes relacionadas à Guerrilha do Araguaia - relatórios, fotografias, entrevistas com fontes militares, entre outras - foram socializadas via imprensa e obras de pesquisadores, a maioria, jornalistas. Divulgou-se nomes de oficiais, com período de atuação e função.

Tem sido assim desde 24 de setembro de1972, quando o Estado de S.Paulo publicou matéria sobre as operações anti-guerrilha em curso, no então estado de Goiás, em Xambioá, e sudeste do Pará. Na reportagem, alguns nomes de guerrilheiros como Paulo e Dina (Paulo Mendes Rodrigues e Dinalva Conceição Oliveira Teixeira) já eram citados, bem como o nome do general responsável, Antonio Bandeira.

No final dos anos 70, o Jornal da Tarde publicou uma série de reportagens sobre o Araguaia. O ex-militante comunista, José Genoíno, concedeu, para uma revista, da Editora Alfa Ômega, entrevista detalhando sua experiência. Sobreviventes aprisionados voltavam, naquele período, à militância, exemplo de Genoíno, Dower Moraes Cavalcante e Glênio Sá. Outros seguiram outros caminhos, amargando a exclusão política por terem sobrevivido. 

É importante lembrar que não morreram somente guerrilheiros. Pereceram moradores e, segundo o ex-major Sebastião Curió, 16 militares, entre eles um soldado de 19 anos, de Minas Gerais, que se enforcou numa corda, quando servia na base militar do Caiano, ex-posse de Paulo Mendes Rodrigues, quando comandante do Destacamento C, em São Geraldo (PA). 

O primeiro componente das Forças Guerrilheiras a ser preso, na Transamazônica, foi Danilo Carneiro, do Dst A, em 14 de abril de 1972. Sua tortura começou ali mesmo e continuaria por longo tempo em Brasília. Danilo é um dos sobreviventes. Na petição da Corte Internacional, o mais barbarizado dos guerrilheiros é citado como testemunha das "vítimas", um rol gigantesco de familiares.



                           

Cabo Odílio Cruz Rosa, de Belém,
primeiro a tombar no conflito, em 8 de maio de 1972




Em 1993, fonte anônima entrega a deputados de uma comissão externa da Câmara, o relatório da Operação Papagaio (setembro-outubro de 1972), com lista de militares e até os lugares onde se sentaram no avião da FAB. Esse relatório não seria divulgado na época.

Em 1996, a filha do general Bandeira, Marcia Bandeira, com o pai ainda vivo, entrega uma série de documentos ao jornal O Globo, que publica um dossiê, em várias edições do jornal,  sobre o tema, no qual inclui fotografias de prisioneiros e mortos, a exemplo de Kleber Lemos, Carlito, fotografado ainda com a bússula pendurada ao pescoço.

De lá para cá, muitos livros, reportagens e artigos são publicados. A entrevista abaixo mostra como o general Taumaturgo Sotero Vaz trata o assunto: além de revelar sua opinião sobre o conflito, revela e denuncia fatos contundentes.

Durante as pesquisas do Grupo de Trabalho Tocantins, em 2009 e 2010, Hugo Stuart e eu entregamos uma lista de militares, incluindo oficiais como o general Thaumaturgo, para serem procurados pelo grupo e, quem sabe, colaborarem com informações que revelassem destinos de guerrilheiros e também de militares mortos na guerrilha.

O general, segundo informou a coordenação do grupo, aceitou a entrevista, ainda não realizada. Nossa intenção era a de abreviar o tempo gasto em buscas que, entendíamos, poderiam não chegar a lugar algum e os gastos do dinheiro público no cumprimento da sentença da Justiça Federal.

Agora, o que se vê, é exatamente o contrário. E, ainda, pelo que sabemos, utilizam, em meio ao grupo, agora intitulado Grupo de Trabalho Araguaia, a tentativa de desqualificação de pessoas cujo objetivo é colaborar com a história do país, direito inalienável de qualquer cidadão. 

Assim tem sido em relação a outros temas, como as denúncias de corrupção: tenta-se, lavando os cérebros já fanatizados, desqualificar e provocar o ódio contra jornalistas e veículos de comunicação.

Todos os que acompanham a redemocratização sabem que os militantes de esquerda, em sua maioria, não queriam ser chamados de revanchistas. Queriam prosseguir na vida pública, lembrando seus companheiros e buscando aplicar, quando se chegasse ao poder, as ideias para uma nação mais justa. Hoje, força-se um revanchismo fora de hora, num momento em que a falta de caráter e o comportamento criminoso de pessoas do seio da esquerda são revelados.

Ao meu ver, usa-se a história dos que combateram, com sinceridade, a linha-dura para mascarar a realidade que nos assola: a esquerda está em crise, crise ética e moral. É por dentro dela que deveria se dar o verdadeiro combate. O resto é tinta.




Entrevista com Thaumaturgo Sotero Vaz

Jornal do Norte - 7 de maio de 1996
Especial Araguaia - Miriam Malina



O general Thaumaturgo Sotero Vaz, 63 anos, vestiu o pijama há quatro anos e é uma das figuras mais polêmicas do Exército brasileiro - comandante do Destacamento das Forças Especiais (boinas pretas), no Rio de Janeiro; comandante do Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS), em Manaus; chefe do Estado-Maior do Comando Militar da Amazônia (CMA). E, a Serviço dos EUA, instrutor anti-guerrilha por toda a América Latina.

Thaumaturgo diz que foi combater os guerrilheiros do PCdoB no Araguaia somente em 1972. Essa afirmação é nebulosa, porque outros militares falam que o então Major Vaz teria retornado à região em 1975, o período mais sangrento. Ele nega. Nesta entrevista exclusiva ao JN, o general conta o suficiente para trazer à luz algumas informações no mínimo polêmicas. Ele diz, por exemplo, que o atual deputado federal e ex-guerrilheiro José Genoíno "dedurou" seus companheiros. Confira.

N - Quando o senhor foi para o Araguaia?

Vaz - Em abril de 1972. Fui chamado para preparar outros destacamentos operacionais. Os guerrilheiros Oswaldão e Fogoió emboscaram um cabo na localidade de Couro Dantas e eu teria que resgatar o corpo.

JN - Resgatar o corpo de um cabo é missão para comandante dos boinas pretas?

Vaz - O guerrilheiro Oswaldão espalhou a informação de que quem entrasse na selva para apanhar o corpo do cabo seria dizimado por outros 100 guerrilheiros. Saí do Rio com 36 homens, menos de um pelotão.

JN - O senhor, então, fez parte da primeira expedição militar?

Vaz - Não é bem a primeira, porque na área já estavam fazendo operações militares. A 8ª região Militar conduzia há um certo tempo atividades de reconhecimento e informações, codificadas com o nome de Operação Peixe. O general Rodrigo Otávio, comandante militar da Amazônia, realizou uma grande manobra em 70, para impedir a arrancada da força guerrilheira.

JN - Qual o calibre operacional e moral dos seus homens?

Vaz - As minhas equipes eram de gente muita cara, especializadíssima. Demos as instruções para as tropas do 1º e 2º Bis montarem uma difícil Operação Andorinhas, que foi um grande cerco aos guerrilheiros do PCdoB. O saldo foi positivo, porque destruiu vários campos de treinamento dos guerrilheiros, pistas de combate e pontos clandestinos de suprimento.

JN - Como a população local se relacionava com os guerrilheiros?

Vaz - Eles tinham grande simpatia pelos guerrilheiros, que participavam das atividades da comunidade com eficiência, principalmente, nas áreas da educação, saúde, agricultura e pecuária, com padrões morais inigualáveis. Inicialmente, os guerrilheiros não pensavam em sair para a luta direta. Só > quando se iniciou a intervenção militar é que começaram a fazer proselitismo armado.

JN - Era fácil pegar guerrilheiro?

Vaz - Eu preparei as Operações Couro Dantas e Andorinhas, mas durante 15 dias de patrulhamento não consegui encontrar, mesmo patrulhando 24 horas uma área de mais de 100 quilômetros quadrados, uma palha sequer.

JN - E a moral dos seus soldados?

Vaz - A formação que o Exército dá até hoje aos oficiais e sargentos chega a ser ingênua. Só fala de virtudes e qualidades, como bravura, disciplina, honestidade, mas há deficiências sérias de caráter e formação no combatente de selva. Tive que afastar pára-quedistas e operadores das forças especiais porque eram demasiadamente violentos e indisciplinados.

JN - Quais os seus melhores embates anti-guerrilha?

Vaz - O melhor deles foi quando um mateiro que comprava gêneros para os guerrilheiros pediu dinheiro do Exército e se ofereceu para guiar um destacamento até a base de Caiano. Os guerrilheiros mandaram bala e dois dos meus homens caíram feridos. Peguei um helicóptero e fui resgatá-los, mas tive que trazer o corpo do guerrilheiro Bergson Gurjão Farias, também chamado Jorge e Ciro.

JN - Algum momento lhe paralisou no Araguaia?

Vaz - Eu fiquei besta quando vi os campos de treinamento dos guerrilheiros. As pistas de aplicação ficavam na subida das colinas, o que exigia um grande preparo físico, resistência e determinação. Os obstáculos ultrapassados eram idênticos aos do Centro de Instruções de Guerra na Selva, em Manaus. As bases guerrilheiras tinham sistemas sutis de alarme, com varetas, armadilhas, estacas pás e stands de tiro. Os guerrilheiros chegaram a fabricar uma submetralhadora semelhante a Uru do exército brasileiro. Tinham FAL, que o Lamarca expropriou do quartel de Quitaúna, mas também armamentos rústicos, fuzis 1908 e mosquetões. Coisas de idealistas determinados, pica-pau de rolha brigando contra canhão.

JN - Como o senhor via os guerrilheiros?

Vaz - Não posso subestimar o valor daquele pessoal e desrespeitar a memória deles. Eram inimigos. Podiam ter me metido uma bala na cabeça. Azar, é contingência da guerra. Mas eles eram determinados, corajosos, idealistas, puros.

JN - Porque as Forças Armadas esconderam essa guerra?

Vaz - Eu não sei.

JN - Devido as atrocidades que ocorreram?

Vaz - Deve ter sido.

JN - Esconderam, porque muitos estavam com os corpos dilacerados?

Vaz - É possível.

JN - Mas o senhor era comandante de uma tropa de elite militar conhecida como das mais ferozes...

Vaz - É verdade.

JN - Assassina...

Vaz - Pára aí... Minha tropa tinha moral, ética, tranqüilidade e flexibilidade psíquica. Ninguém matava por matar. Se usassem a arma fora de combate para matar alguém, eu considerava um assassino comum.

JN - Qual a diferença das forças especiais para o resto das tropas?

Vaz - É o treinamento. Uma das máximas que usamos no treinamento é: "o suor poupa o sangue". Se eu estou em combate, o cara está lá, eu dei a voz de prisão e ele atirou em mim, ele vai tomar uma mecha (tiro) direto.

JN - E o peso da tortura?

Vaz - Tem que aproveitar o momento psicológico da prisão. Nesse momento, se não for arrancada a informação, se o cara não abrir a boca, ele não vai falar nunca. A tortura só faz falar as pessoas fracas, porque o cara pode inventar para se livrar. E na selva, ele inventa também.

JN - Como vocês tiravam informação dos guerrilheiros?

Vaz - Genoíno, gosto muito dele, mas quando ameaçaram, ele saiu indicando campo aqui, campo de treinamento ali, posto de suprimento acolá, dedurando. Mas viveu. Quando eu vi ele lá, perguntei: "o que esse cara está fazendo aqui. Porque esse cara já não foi para Brasília? Mandem esse cara embora. Ele já deu toda a informação que tinha que dar". E mandaram ele para Brasília.

JN - Qual foi o guerrilheiro que o senhor encontrou cara a cara?

Vaz - Foi uma mocinha. Ela está viva até hoje... Ela ficou lá. Não me lembro o nome... será que era a Petit? Não, não era nâo... Era uma das Dinas... não era a bunduda não, era uma fraquinha. Só estive com ela e o Genoíno.

JN - Como a Rádio Tirana confundiu a cabeça dos militares?

Vaz - As transmissões da Rádio Tirana deixavam todo mundo maluco. O que me surpreendia é que a rádio dava todo o movimento do dia. Dizem que dentro das unidades militares no Araguaia haviam informantes dos guerrilheiros. Nem tudo era controlado por nós. Podia ser um cara infiltrado no Exército, Marinha e Aeronáutica.

JN - Haviam contradições e brigas entre os militares no Araguaia?

Vaz - Aqueles pústulas de informações eram um bando de safados, vagabundos, que não faziam nada e viviam correndo atrás da gente, para saber o que estava acontecendo, para puxar o saco do seu chefe, pegar o telefone e prestar um serviço para Brasília. Mandavam botar o fulano pra fugir. Eles queriam que o Genoíno fugisse pra matá-lo. Haviam brigas, sim. Ele está vivo porque eu não deixei matar. "Bota esse cara no avião. Bota esse cara pra Brasília". Enquanto os malucos diziam: "Não, tem que deixar ele fugir". Era um bando de vagabundos da informação, sem curso nenhum. Para eles, o mais fácil era matar, acabar com o cara... É assim? Não, isso não pode ser assim, não. Nós somos do Exército para combater. Morre-se em combate ou fere-se em combate. E não se pode pegar o guerrilheiro, levar para um > canto e pá, pá, pá...

JN - O que mais lhe impressionou em tudo isso?

Vaz - A humildade, a modéstia de equipamento e de armamento, ao lado de uma determinação e coragem inabalável dos guerrilheiros do Araguaia na defesa dos seus ideais contra Fal, Parafal, armamento pesado, helicópteros, foguetes, granadas de mão...

JN - Hoje, os militares falam em causas sociais, chamam o regime de exceção de ditadura mesmo e são contra a tortura. Esse discurso é para camuflar a realidade que viveram antes ou naquele tempo vocês já tinham essa consciência?

Vaz - Sempre houve um certo nojo à ação política dentro do Exército. E há até hoje. Mas nós tivemos no passado muito mais generais políticos, que usavam farda por acaso. A república e o tenentismo são exemplos. Com a maior divulgação dos meios de comunicação, maior liberdade de expressão e informação a coisa mudou. A mentalidade do Exército hoje é completamente diferente.

JN - A formação do soldado regular é na base das virtudes que chegam até ser ingênuas, como o senhor falou. Em contato com um combatente guerrilheiro, ele não poderia ser influenciado?

Vaz - Poderia! Havia esse perigo. A técnica e formação psicológica do guerrilheiro são perigosas para o militar, porque são muito plásticas.

JN - Hoje, a chamada condição objetiva revolucionária existe?

Vaz - Os sem-terra são um exemplo...